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CAPA E CONTRACAPA

 

Por havermos chegado ao ano 1 da pandemia, estamos vivendo um estado de oscilação constante entre o autocuidado e a insegurança diante de tantas regras sanitárias de distanciamento social, restrição de circulação e tempo dentro de casa. As sensibilidades em relação ao real, às outras pessoas e a nós mesmxs tem sido profundamente transformadas: como andamos na rua, percebemos um cheiro, respiramos, trabalhamos, dormimos, aprendemos, amamos, recebemos uma informação, olhamos um trabalho de arte, lemos um texto, provamos uma comida, tocamos a pele de alguém. A instabilidade tem guiado os nossos sentidos. As duas exposições individuais simultâneas apresentadas no Anexo Lona - CAPA E CONTRACAPA - irrompem no espaço como som, com dois lados dissonantes, mas complementares. A proposição surge movida pela inspiração gráfica do ato de se criar uma incerta e possível ligação tátil; como frente e verso de um álbum musical, em que pinturas exibidas nas paredes são as próprias gravações sonoras. 

 

CAPA   -    VIVIANE TEIXEIRA

 

Nas telas de massas compactas, cores agudas, gestos graves. Seres imaginários de características medievais compõem o universo retratado na pintura de Viviane Teixeira. Suas formas assemelham-se a figuras míticas de uma corte de fábulas literárias, ora a personagens de RPG (role-playing game). Seus trabalhos tem títulos bem-humorados em inglês folk, e apontam a personas atemporais. Há a presença de instigantes elementos naturais e objetos externos de poder em suas figurações pictóricas: o suco verde, o cristal azul, as pipas, instrumentos e flores. De algum lugar nos é trazida imediatamente a memória de livros infantis perdidos com ilustrações majestosas. A produção da artista vem sendo publicamente acompanhada mais de perto desde sua participação no edital Programa de Exposições do CCSP em 2015, e de lá pra cá tem marcado em suas obras de pintura uma vívida sucessão de alter egos e avatares anacrônicos, estando fixados em uma mise-en-scène bastante singular de cenários e figurinos voltados aos jogos, rituais, hábitos e costumes de outrora. 

 

CONTRACAPA   -  FÁBIO MENINO

 

As formas são duras, porém leves e em tons suaves. A batida da repetição é sincopada, e a permanência de padrões na pintura do artista Fabio Menino atrai fortemente o nosso olhar. Suas obras representam plasticamente ferramentas da lida do cotidiano: mangueira, alicate, balança eletrônica, extintor, ferro de passar roupa, galão e caixa d'água. Tais figuras ocasionam um efeito pontiagudo e hipnótico de engano, pois nos transportam instantaneamente para ambientes de ateliê e oficinas de escala doméstica. Vislumbramos em seus trabalhos aspectos rotineiros das tarefas do dia a dia, guardamos a sensação do peso dos objetos comuns. Há entre o conjunto de telas do artista uma menção a 99,00 - se tal cifra é sobre o preço da carne, o valor de materiais artísticos ou um mal-entendido visual qualquer, na realidade não importa. Com a seleção exposta de pinturas, a indagação que fica acerca do vínculo identitário com o mundo físico das imagens de Fabio Menino traduz-se por ser pura ficção, ou não.

 

 

MARCIO HARUM