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Em um exercício hipotético e arbitrário, suponhamos a tarefa de posicionar, lado a lado, uma centena de indivíduos, emparedados em um longo corredor e ordenados por seus diagnósticos mentais. Nossa tendência organizativa de enquadrar tudo que existe — afeitos a oposições demarcadas — levaria-nos a situar em extremos distantes os loucos e os sãos, os perigosos e os dóceis: no intervalo entre eles, estariam distribuídas todas as patologias, dissonâncias e anomalias, hierarquizadas por seus matizes. A ação da razão sobre a loucura também é uma forma de poder.


Apesar de absurdo, tal exemplo nos desperta a um devir histórico: a relação entre o desatino, como sentido último da loucura, e a racionalidade, como forma de sua verdade. As galerias Lona (São Paulo), Mamute (Porto Alegre) e Soma (Curitiba) apresentam exposições concomitantes reunindo oito artistas: evitando defender uma pretensa uniformidade e confluência em suas expressões, aproximam-se obras cuja verve reside no intervalo que as delimitam. Para além do caos e da desordem, encontram-se elaborações precisas e minuciosas; somam-se conceitos rigorosos com pesquisas assentadas na aleatoriedade de formas e gramáticas — convive, assim, ampla sorte de estrutura, lirismo e método.

 

Ao pensar a desrazão, Peter Pál Pelbart encara a insanidade como uma dimensão humana necessária: através dela, “o homem pode atribuir-se o que não tem, ser o que não é, fazer o que não faz. A loucura é, portanto, um ‘privilégio’ do homem”. À luz de seu reverso, quando a medicina, com o nascimento da psiquiatria, inicia o controle do louco, ela cria o hospício: forma-se um esquema de vigilância total baseado em uma pirâmide de olhares — envolvendo médicos, enfermeiros, serventes —, reproduzindo a mesma técnica empregada em outras instituições como a escola, o presídio e a fábrica. O louco é contido, o aluno disciplinado, o detento encarcerado: ao castrar a liberdade do outro, estamos seguros — quiçá.


“Coexistem, no louco, um sujeito que crê em suas fantasmagorias e outro que sabe a verdade” — sugere Pelbart, lúcido de que a legítima razão não está isenta de todo compromisso com a loucura. Não há contradição em aproximar uma subjetividade imaginária — determinante do delírio e da alienação — ao pensamento organizado e coerente da realidade — característico da mens sana. Supor a existência de razão na loucura é tirar mordaças e ouvir profecias, abandonar a clausura dos extremos e abrir-se à expressão cristalina que surge da consciência insana.


Henrique Menezes